China e a Vila das Mulheres de Cabelos Longos
A China é daqueles destinos que começam a entrar na moda. É provável que, nos próximos anos, vejamos um crescimento enorme no número de artigos, vídeos e textos falando sobre o país como um destino incrível que merece ser visitado.
Como muitas vezes comento: goste ou não da China, é altamente recomendável ficar de olho no que está acontecendo do outro lado do mundo. Seja por razões geopolíticas, econômicas ou outras, o fato é que não se pode mais ignorar um país que tem tudo para ocupar uma posição cada vez mais central na economia mundial nas próximas décadas. Tolice é fechar os olhos por puro preconceito ou ignorância.

Para além dos destinos mais conhecidos
Caso você planeje fazer sua primeira viagem para a China, certamente cidades como Beijing (Pequim), para visitar a Cidade Proibida; a moderna e gigantesca Shanghai; Guangzhou (Cantão), com sua famosa Canton Fair; e Xi\'an, com seus guerreiros de terracota, devem estar no seu roteiro.
O destino que me levou à Vila das Mulheres de Cabelos Longos foi uma região muito turística para os chineses, mas ainda incomum para viajantes novatos na China: a província de Guangxi, onde ficam as cidades de Guilin e Yangshuo. Uma belíssima região onde é possível fazer um cruzeiro pelo rio Li e deslocar-se entre as duas cidades.

Estávamos na capital, Beijing, e nos deslocamos até Guilin via trem-bala. Foram 2.100 km percorridos em apenas oito horas, a uma velocidade de até 300 km/h. Impossível não pensar que nosso Brasilzão poderia ter uma malha ferroviária com uma cobertura mínima. Imagine fazer São Paulo--Salvador em um tempo aproximado desses?
Após conhecer a quente e fervilhante Guilin, fizemos uma visita à região dos terraços de arroz, mais precisamente à pequenina e charmosa vila de Huangluo. Um passeio bem turístico, normalmente feito em um único dia, um bate-volta que nós evitamos, pois queríamos ficar mais tempo para entender melhor aquela região, seu povo e suas tradições culturais, que tanto nos interessavam.
Um museu dedicado ao cabelo das mulheres
De Guilin, após percorrermos cerca de 90 km de van por aproximadamente duas horas, chegamos à Aldeia Yao de Huangluo (黄洛瑶寨), um vilarejo de casas tradicionais em palafitas, aninhado entre as exuberantes montanhas e plantações de arroz de Longji.

A região é majoritariamente habitada pela etnia Zhuang, também muito rica culturalmente, mas nosso foco era um grupo ainda menor: as mulheres Red Yao --- ou Yao Vermelho ---, em referência às suas vestimentas.
Elas são descritas como \as herdeiras mais fiéis da cultura chinesa do cabelo comprido\
. E não é para menos: seus cabelos ultrapassam 1,6 metro em média, e o mais longo já registrado na vila alcançou 2,3 metros. É comum encontrar mulheres de 70 ou 80 anos com cabelos ainda muito escuros e quase nenhum fio branco.
Em 2002, a vila foi certificada pelo Guinness World Records como a \Vila com o Grupo de Mulheres de Cabelos Mais Longos do Mundo\
. Além disso, o cabelo e as vestimentas Red Yao foram listados como Patrimônio Cultural Imaterial em nível de região autônoma.
Nossa primeira parada foi para conhecer o China Long Hair Science and Technology Museum, com seus 10 mil metros quadrados, que existe desde 2019 para ajudar a preservar a cultura das mulheres de cabelos compridos e sua sabedoria sobre os cuidados capilares.
O museu não é apenas um espaço de preservação --- é também um importante motor econômico da vila --- gerando emprego e renda para as cerca de 400 pessoas que ali vivem, sem precisar abandonar suas tradições. O espaço integra comunicação cultural, manufatura de produtos e um turismo de entretenimento bem estruturado, além de desenvolver produtos voltados para o cuidado e a saúde do couro cabeludo.
Os detalhes da nossa viagem e as entrevistas podem ser apreciados no documentário que estreia no dia 19 de setembro, chamado Vila das Mulheres de Cabelos Longos, no DeRose Method Brooklin, em São Paulo. Para participar, entre em contato pelo telefone 11 94716-1889.
Mulheres como guardiãs da cultura
Ao longo das minhas viagens por diferentes culturas, muitas vezes encontro um cenário semelhante: homens vestidos com roupas casuais, enquanto são as mulheres que mantêm, preservam e lutam pela continuidade daquela tradição. Em Huangluo não foi diferente, e tivemos o privilégio de entrevistar duas senhoras da etnia Red Yao: Pan Gui\'en e a empresária Pan Hong Mei, dona de um belíssimo restaurante na vila.
A razão pela qual muitas pessoas desta vila têm o sobrenome Pan é simples: Huangluo é, em sua grande maioria, formada por membros de um único clã familiar que resiste bravamente para preservar sua cultura. Mas a história é mais profunda: o sobrenome Pan remonta ao herói mítico Pan Hu, um cão-dragão que, segundo a tradição, deu origem ao povo Yao. Mais que um nome, é um elo com sua própria mitologia.

As mulheres Red Yao têm o costume de cortar o cabelo apenas uma vez na vida. Seus longos cabelos são tratados com água de arroz, mantendo-se saudáveis e brilhantes. E não bastasse o comprimento, a maneira de prendê-los também revela o estado civil e a fase da vida da mulher: as solteiras escondem o coque sob o turbante, num penteado chamado \Beleza em Recato\
; as casadas sem filhos usam um \Espiral\
; e as mães exibem com orgulho o \Penteado do Dragão Negro\
, símbolo de prosperidade e descendência.
Por trás de toda essa tradição existe também uma indústria. Pesquisadores e empresas se aproximaram do museu para tentar decifrar os mistérios dos cabelos das mulheres Yao e transformar parte desse conhecimento em produtos. E, claro, no museu você pode adquirir, com um bom punhado de yuans, seu xampu das mulheres da Vila dos Cabelos Longos.
Inclusive, vou abrir o meu, pois umas boas canas grisalhas estão teimando em surgir.
Um exemplo a ser seguido
Além de uma bela expressão cultural, a Vila das Mulheres de Cabelos Longos é uma aula de empreendedorismo e turismo bem-feitos, uma das belezas escondidas da China. Ali, mulheres guardiãs da cultura se juntam, tocam seus negócios e trazem dignidade e desenvolvimento sustentável para suas vilas e famílias. Um exemplo a ser seguido.
Que nosso Brasil possa se inspirar e dar voz a grupos minoritários e, assim, fomentar a pesquisa e a valorização de saberes ancestrais espalhados também pelo nosso país, tão continental quanto a China.
Bora fazer as malas para ver, ouvir e aprender com o diferente!
Se quiser saber mais, aproveite para assistir ao documentário Vila das Mulheres dos Cabelos Longos, que já está no ar no YouTube: